sábado, 21 de janeiro de 2012

Resenha do livro de Adilson Cittelli: Linguagem e persuasão.

Copiada de:http://www.recantodasletras.com.br/trabalhosacademicos

1 Informação sem persuasão?

O autor Citelli, neste momento de introdução da sua obra, aos leitores esclarece que a informação não se furta das práticas persuasivas, ainda que sutilmente enraizadas nas entrelinhas da argumentação do emissor/enunciador, dirigidas a um receptor/destinatário. Para demonstrar de modo bem claro o exposto, ele compara o elemento persuasivo como a pele que envolve o corpo dos animais.
Seu objetivo é demonstrar como os discursos argumentativos das mais variadas instâncias são articulados a partir de ideologias; fornecer um rumo de pesquisa para o assunto que ora descortina, visto que muitas reflexões complementares são necessárias; e por último, espera contribuir ao leitor meios proficientes de identificar formas persuasivas, bem como refletir sobre os diversos tipos existentes de discurso.

2 A tradição retórica

O autor é ciente da importância da historicidade das relações sociais, e é por essa razão que traz um apanhado histórico do surgimento da retórica, tradição que remonta aos gregos do período antigo, por ser fundamental àquele tempo que tribunos e oradores manejassem com habilidade as estratégias argumentativas a fim de persuadir seu público, não apenas falando por falar, mas conciliar convencimento, elegância, arte e espírito. Essa harmonia era chamada de retórica.
O conceito original de retórica foi se transformando no decorrer dos séculos, inclusive com idéias pejorativas. Segundo o autor Citelli, transformou-se em sinônimo de recursos embelezadores do discurso, deixando a noção de composição harmoniosa para efeito estilístico onde priorizava-se o  uso de palavras incomuns, belas, com o único fim de enfeitar.
Citelli nos apresenta o clássico Aristóteles sob uma perspectiva desmistificada, ao dizer que ele fora o precursor a analisar as unidades compositivas voltadas a produzir persuasão, não devendo a ele o título de pai da retórica. O autor clássico diferenciava retórica de persuasão. A retórica para ele tem cunho científico, ou seja, é um conjunto de métodos de produção para se atingir um determinado fim: a persuasão.
A partir dessa explanação aristotélica, Citelli faz algumas ponderações:
            1. a retórica não é persuasão;
            2. a retórica pode revelar como se faz persuasão;
3. os discursos da medicina, da matemática, ou, da história, do judiciário, da
família, etc. são o lugar da persuasão;
            4. a retórica é analítica (descobrir o que é próprio para persuadir);
            5. a retórica é uma espécie de código dos códigos, está acima do compromisso estritamente persuasivo (ela não aplica suas regras a um gênero próprio).
Deste modo, o autor entende que a retórica não lida com o que está sendo dito, mas sim com o como o está, a partir de noções de eficácia, domínio de processo, de formas, instâncias, modos de argumentar. Ele continua na análise dos escritos aristotélicos, que traz uma estrutura para entender a arte da retórica:
1. exórdio: que funciona com a introdução para fidelizar os ouvintes;
2. narração: é o assunto, onde os fatos são desenvolvidos;
3. provas: se apresenta comprovação do que se diz para agregar credibilidade;
4. penoração: é a conclusão onde se assegura a fidelidade do receptor.
Ao se falar em persuasão, é necessária a noção do que é verdadeiro e verossimilhante. Citelli nos conceitua a persuasão como uma busca de adesão de um interlocutor ou auditório a uma tese, perspectiva, conceito, entendimento etc. sobre a validade do que se anuncia. A verdade, entendida com aquilo real e passível de comprovação, nem sempre pode ser utilizada pelo enunciador, preferindo este a verossimilhança, ou seja, aquilo que brinca de verdadeiro, se assemelha ao real e confunde-se com este.
Após tantas reflexões, Citelli nos adverte do “vazio da retórica”, isto é, a vinculação desta com a idéia de embelezamento do texto, pois até hoje persiste a noção pejorativa de retórica como recurso de embelezamento e enfeite do que se diz de coisas sem conteúdo. Em contra partida, pesquisadores de universidades na Europa tem contribuído para o resgate dos estudos retóricos sob sua perspectiva genuína, apontando novas idéias.
O autor aqui retoma alguns conceitos da retórica clássica para discorrer sobre uma série de raciocínios discursivos, que são úteis na pós-modernidade:
            1. o raciocínio apodítico: existe no discurso cuja argumentação, por ser de modo imperativa, não pode ser questionada;
            2. o raciocínio dialético: permite ao receptor formular questionamentos, no entanto ainda quer dirigir a conclusão e o entendimento do receptor;
            3. o raciocínio retórico: este tipo de discurso não deseja apenas um convencimento racional, mas também emotivo, envolvendo dados emocionais.
Ao finalizar este capítulo, Citelli nos lembra da importância das figuras de linguagem, que são usadas como recurso para prender a atenção dos receptores. São elas: a metáfora, quando substituímos um termo por outro, mas que possuem relação semelhante ou
subentendidas e a metonímia, que é a utilização de um termo em lugar de outro, desde que haja uma relação de contigüidade.

3. Signo e persuasão

            A partir da contribuição de Ferdinand de Saussure, cujos estudos versam sobre os signos lingüísticos, caracterizados pela dupla face significado e significante, respectivamente o aspecto imaterial e conceitual que nos remete a uma idéia mental, e o segundo como o aspecto concreto do signo, sua realidade material ou imagem acústica, Citelli expõe a importância desse estudo porque ele subsidiará a compreensão das teorias que outros autores trouxeram para a linguagem.
            Sintetizando Mikhail Bakhtin (1895-1975), Citelli expõe que é impossível separar os signos dos estudos das ideologias, visto existir uma íntima relação entre ambos. Para se identificar as idéias, valores, enfim: as ideologias contidas nos discursos, é necessário conhecer a natureza dos signos, das palavras.
            Utilizando exemplos práticos do dia-a-dia, como propagandas, placas e cartazes que nos cercam constantemente, Citelli faz-nos entender que a escolha das palavras dirige a compreensão, opinião e adesão do receptor para o fim que o emissor deseja. Essa palavra, no entanto, não é a mesma que se encontra em dicionários, mas sim aquela selecionada e contextualizada, que passa a expressar valores e idéias, tornando-se veículo difusor de ideologias.
            Outra reflexão importante que o autor tece diz respeito a um costume conceituado por ele como “a troca de nomes”. Retomando os conceitos do parágrafo anterior, que esclarece a importância dos signos por conterem carga semântica valiosa nos contextos utilizados, dá-se preferência a termos que minimizam, maquiam ou escondem os reais sentidos daquilo que se quer dizer. É o que fazem os empresários ao utilizarem termos como “livre-concorrência”, “livre-iniciativa” ao invés de se falar em “capitalismo”, por este conter valor semântico “negativo” no inconsciente social, por representar disputas comerciais, envolver dinheiro, etc.
            Ao dar seqüência a reflexão, Citelli ainda diz que nossos discursos podem não ser necessariamente nossos discursos. A palavra é um veículo difusor de idéias e modelador de consciência. Assim sendo, somos formados por unidades discursivas que acumulamos ao longo do processo de interação social. Portanto ao falarmos, somos falados por aquilo que somos, caracterizando nossa argumentação como discurso já proferido e internalizado, desnudando conjuntos maiores, chamados de formações discursivas.
            Segundo Citelli, o discurso persuasivo possui três facetas, que se estudadas didaticamente, auxiliarão o esclarecimento da relação íntima emissor/receptor:
                        1. formar: são os discursos cujo foco é criar comportamentos, valores e idéias em seu público;
                        2. reformar: são os discursos que se prestam a remodelar valores e idéias já existentes no meio social, reformulando pontos de vista;
                        3. conformar: este discurso não quer formar tampouco reformar algo já socialmente estabelecido, mas reiterar, incrementar, lembrar, etc.

4. Tipos de discurso

            O autor prossegue sua análise a partir das contribuições da pesquisadora Eni Orlandi, que propôs um modo de organização dos discursos para melhor compreensão:
                        1. o discurso lúdico: seria um discurso marcado por um jogo de interlocuções onde há menos verdade um, reduzindo-se o desejo de convencer;
                        2. o discurso polêmico: há o desejo do eu de dominar o referente com maior persuasão. Impondo sua voz as demais, o emissor argumenta para firmar sua posição;
                        3. o discurso autoritário: é aqui que existe a dominação pela palavra. O processo de comunicação praticamente desaparece e o discurso é exclusivista, pouco dado a mediações ou ponderações.
            Para sistematizar a análise do discurso, Citelli cita outro pesquisador, Courdesses, que propõe quatro elementos que auxiliarão nesse processo analítico do discurso autoritário:
                        1. distância: atitude do emissor, que é exclusivo, frente ao enunciado. Sua é mais forte que os próprios elementos enunciados;
                        2. modalização: o modo como o emissor constrói seu enunciado. Existe o uso do modo imperativo, do caráter parafrástico;
                        3. tensão: relação estabelecida entre emissor/receptor. Aquele se impõe à fala deste, é um eu impositivo com voz de quem comanda;
                        4. transparência: a polissemia do discurso é descartada, pois se objetiva a compreensão rápida e direta do discurso pelo receptor.

5.      Textos persuasivos

Nesta parte da obra, o autor Citelli indica alguns textos para análise do raciocínio
exposto até aqui. São textos extraídos da religião, publicidade, literatura e etc. que fundamentarão seu argumento. Ele inicia esta parte pelo discurso publicitário, que se vale das ordenações sociais, culturais, econômicas e psicológicas do receptor, aliadas ao uso de slogans, raciocínios formais e figuras de linguagem que promovem o sucesso, inclusive perpetuação de valores e difusão de estereótipos ou sua confirmação.
            No tocante ao discurso religioso, o autor analisa a forte presença da persuasão neste, visto que os emissores (padres, pastores e etc.) são apenas canais de uma entidade imaterial, cuja voz supõe poder absoluto as demais, onde existe a “ilusão da reversibilidade”, termo criado pelo pesquisador Orlandi para designar a falta de interação entre emissor/receptor. Dialogar-se-á com quem? Deus Fala?
            O autor chama nossa atenção para o perigo dos discursos presentes nos livros didáticos, que também funcionam como veículos de ideologias de classes dominantes ou sofrem interferência dos valores e idéias de quem os produzem. Citelli estuda alguns textos e analisa estereótipos e idealizações neles contidos que servem de apoio as séries iniciais da educação. Esses discursos formados por signos próprios do discurso dominante, impõem aos demais os modelos daquilo que é bom e correto, forjando uma realidade além da vivenciada pelas crianças de classes baixas.
            Partindo para os textos literários, Citelli analisa fragmentos da literatura em que as obras não terminam incólumes as interferências de quem as narra, trazendo em seu âmago as formações discursivas e ideológicas do narrador. Este se faz conhecer, se expressa e apesar de não o querer, opina e persuade pela utilização de signos específicos e articulados, que dirigem a assimilação e compreensão de quem lê. A intenção é diminuir a ambigüidade, a polissemia, resultando numa persuasão dirigida.
            Em função das transformações socioculturais da era contemporânea, Citelli nos argumenta que os diversos meios de comunicação de adequaram as demandas de público, com textos de informação para os diversos segmentos: jurídico, esportivo, religioso, sensacionalista e etc., sem, no entanto, furtarem-se à prática persuasiva. Os artigos podem trazer a informação imaculada, mas quando um colunista ou redator escreve sobre o assunto, descarrega seu arsenal ideológico. Podemos captar tal conceito ao analisar notícias, onde extraímos a informação necessária como quando? onde? como? e assim por diante, mas ao nos determos nos adjetivos, advérbios, tempos verbais, e etc., perceberemos nitidamente o autor falando a partir do seu mundo pessoal.

Atenção: a resenha de Eduardo Garcia não substitui a leitura integral do texto.
O aluno deve fazer sua própria ficha de leitura.

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