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1 Informação sem
persuasão?
O autor Citelli, neste momento de introdução da sua obra, aos leitores
esclarece que a informação não se furta das práticas persuasivas, ainda que
sutilmente enraizadas nas entrelinhas da argumentação do emissor/enunciador,
dirigidas a um receptor/destinatário. Para demonstrar de modo bem claro o
exposto, ele compara o elemento persuasivo como a pele que envolve o corpo dos
animais.
Seu objetivo é demonstrar como os discursos argumentativos das mais
variadas instâncias são articulados a partir de ideologias; fornecer um rumo de
pesquisa para o assunto que ora descortina, visto que muitas reflexões
complementares são necessárias; e por último, espera contribuir ao leitor meios
proficientes de identificar formas persuasivas, bem como refletir sobre os
diversos tipos existentes de discurso.
2 A tradição retórica
O autor é ciente da importância da historicidade das relações sociais, e
é por essa razão que traz um apanhado histórico do surgimento da retórica,
tradição que remonta aos gregos do período antigo, por ser fundamental àquele
tempo que tribunos e oradores manejassem com habilidade as estratégias
argumentativas a fim de persuadir seu público, não apenas falando por falar,
mas conciliar convencimento, elegância, arte e espírito. Essa harmonia era
chamada de retórica.
O conceito original de retórica foi se transformando no decorrer dos
séculos, inclusive com idéias pejorativas. Segundo o autor Citelli,
transformou-se em sinônimo de recursos embelezadores do discurso, deixando a noção
de composição harmoniosa para efeito estilístico onde priorizava-se o uso de palavras incomuns, belas, com o único
fim de enfeitar.
Citelli nos apresenta o clássico Aristóteles sob uma perspectiva
desmistificada, ao dizer que ele fora o precursor a analisar as unidades
compositivas voltadas a produzir persuasão, não devendo a ele o título de pai
da retórica. O autor clássico diferenciava retórica de persuasão. A retórica
para ele tem cunho científico, ou seja, é um conjunto de métodos de produção para
se atingir um determinado fim: a persuasão.
A partir dessa explanação aristotélica, Citelli faz algumas ponderações:
1. a retórica não é
persuasão;
2. a retórica pode
revelar como se faz persuasão;
3. os discursos da medicina, da matemática, ou, da
história, do judiciário, da
família, etc. são o lugar da persuasão;
4. a retórica é
analítica (descobrir o que é próprio para persuadir);
5. a retórica é uma
espécie de código dos códigos, está acima do compromisso estritamente
persuasivo (ela não aplica suas regras a um gênero próprio).
Deste modo, o autor entende que a retórica não lida com o que está sendo dito, mas sim com o como o está, a partir de noções de
eficácia, domínio de processo, de formas, instâncias, modos de argumentar. Ele
continua na análise dos escritos aristotélicos, que traz uma estrutura para
entender a arte da retórica:
1. exórdio: que
funciona com a introdução para fidelizar os ouvintes;
2. narração: é
o assunto, onde os fatos são desenvolvidos;
3. provas: se
apresenta comprovação do que se diz para agregar credibilidade;
4. penoração: é a conclusão onde se
assegura a fidelidade do receptor.
Ao se falar em persuasão, é necessária a noção do que é verdadeiro e verossimilhante.
Citelli nos conceitua a persuasão como uma busca de adesão de um interlocutor
ou auditório a uma tese, perspectiva, conceito, entendimento etc. sobre a
validade do que se anuncia. A verdade, entendida com aquilo real e passível de
comprovação, nem sempre pode ser utilizada pelo enunciador, preferindo este a
verossimilhança, ou seja, aquilo que brinca de verdadeiro, se assemelha ao real
e confunde-se com este.
Após tantas reflexões, Citelli nos adverte do “vazio da retórica”, isto
é, a vinculação desta com a idéia de embelezamento do texto, pois até hoje
persiste a noção pejorativa de retórica como recurso de embelezamento e enfeite
do que se diz de coisas sem conteúdo. Em contra partida, pesquisadores de
universidades na Europa tem contribuído para o resgate dos estudos retóricos
sob sua perspectiva genuína, apontando novas idéias.
O autor aqui retoma alguns conceitos da retórica clássica para discorrer
sobre uma série de raciocínios discursivos, que são úteis na pós-modernidade:
1. o raciocínio apodítico: existe no discurso cuja argumentação, por
ser de modo imperativa, não pode ser questionada;
2. o raciocínio dialético: permite ao receptor formular
questionamentos, no entanto ainda quer dirigir a conclusão e o entendimento do
receptor;
3. o raciocínio retórico: este tipo de discurso não deseja apenas um
convencimento racional, mas também emotivo, envolvendo dados emocionais.
Ao finalizar este capítulo, Citelli nos lembra da importância das figuras
de linguagem, que são usadas como recurso para prender a atenção dos
receptores. São elas: a metáfora, quando substituímos um termo por outro, mas
que possuem relação semelhante ou
subentendidas e
a metonímia, que é a utilização de um termo em lugar de outro, desde que haja
uma relação de contigüidade.
3. Signo e
persuasão
A partir da contribuição de
Ferdinand de Saussure, cujos estudos versam sobre os signos lingüísticos,
caracterizados pela dupla face significado e significante, respectivamente o
aspecto imaterial e conceitual que nos remete a uma idéia mental, e o segundo
como o aspecto concreto do signo, sua realidade material ou imagem acústica,
Citelli expõe a importância desse estudo porque ele subsidiará a compreensão
das teorias que outros autores trouxeram para a linguagem.
Sintetizando Mikhail Bakhtin
(1895-1975), Citelli expõe que é impossível separar os signos dos estudos das
ideologias, visto existir uma íntima relação entre ambos. Para se identificar
as idéias, valores, enfim: as ideologias contidas nos discursos, é necessário
conhecer a natureza dos signos, das palavras.
Utilizando exemplos práticos do dia-a-dia,
como propagandas, placas e cartazes que nos cercam constantemente, Citelli
faz-nos entender que a escolha das palavras dirige a compreensão, opinião e
adesão do receptor para o fim que o emissor deseja. Essa palavra, no entanto,
não é a mesma que se encontra em dicionários, mas sim aquela selecionada e
contextualizada, que passa a expressar valores e idéias, tornando-se veículo
difusor de ideologias.
Outra reflexão importante que o
autor tece diz respeito a um costume conceituado por ele como “a troca de
nomes”. Retomando os conceitos do parágrafo anterior, que esclarece a
importância dos signos por conterem carga semântica valiosa nos contextos
utilizados, dá-se preferência a termos que minimizam, maquiam ou escondem os
reais sentidos daquilo que se quer dizer. É o que fazem os empresários ao
utilizarem termos como “livre-concorrência”, “livre-iniciativa” ao invés de se
falar em “capitalismo”, por este conter valor semântico “negativo” no
inconsciente social, por representar disputas comerciais, envolver dinheiro,
etc.
Ao dar seqüência a reflexão, Citelli
ainda diz que nossos discursos podem não ser necessariamente nossos discursos. A
palavra é um veículo difusor de idéias e modelador de consciência. Assim sendo,
somos formados por unidades discursivas que acumulamos ao longo do processo de
interação social. Portanto ao falarmos, somos falados por aquilo que somos,
caracterizando nossa argumentação como discurso já proferido e internalizado,
desnudando conjuntos maiores, chamados de formações discursivas.
Segundo Citelli, o discurso
persuasivo possui três facetas, que se estudadas didaticamente, auxiliarão o
esclarecimento da relação íntima emissor/receptor:
1. formar: são os discursos cujo foco é criar comportamentos, valores
e idéias em seu público;
2. reformar: são os discursos que se prestam a remodelar valores e
idéias já existentes no meio social, reformulando pontos de vista;
3. conformar: este discurso não quer formar tampouco reformar algo já
socialmente estabelecido, mas reiterar, incrementar, lembrar, etc.
4.
Tipos de discurso
O
autor prossegue sua análise a partir das contribuições da pesquisadora Eni
Orlandi, que propôs um modo de organização dos discursos para melhor
compreensão:
1. o discurso lúdico: seria um discurso marcado por um jogo de
interlocuções onde há menos verdade um,
reduzindo-se o desejo de convencer;
2. o discurso polêmico: há o desejo do eu de dominar o referente com maior persuasão. Impondo sua voz as
demais, o emissor argumenta para firmar sua posição;
3. o discurso autoritário: é aqui que existe a dominação pela palavra.
O processo de comunicação praticamente desaparece e o discurso é exclusivista,
pouco dado a mediações ou ponderações.
Para sistematizar a análise do
discurso, Citelli cita outro pesquisador, Courdesses, que propõe quatro
elementos que auxiliarão nesse processo analítico do discurso autoritário:
1. distância: atitude do emissor, que é exclusivo, frente ao enunciado.
Sua é mais forte que os próprios elementos enunciados;
2. modalização: o modo como o emissor constrói seu enunciado. Existe o
uso do modo imperativo, do caráter parafrástico;
3. tensão: relação estabelecida entre emissor/receptor. Aquele se
impõe à fala deste, é um eu
impositivo com voz de quem comanda;
4. transparência: a polissemia do discurso é descartada, pois se
objetiva a compreensão rápida e direta do discurso pelo receptor.
5.
Textos persuasivos
Nesta parte da obra, o autor Citelli indica alguns textos para análise do
raciocínio
exposto até aqui. São textos extraídos da religião, publicidade,
literatura e etc. que fundamentarão seu argumento. Ele inicia esta parte pelo
discurso publicitário, que se vale das ordenações sociais, culturais,
econômicas e psicológicas do receptor, aliadas ao uso de slogans, raciocínios formais e figuras de linguagem que promovem o
sucesso, inclusive perpetuação de valores e difusão de estereótipos ou sua
confirmação.
No tocante ao discurso
religioso, o autor analisa a forte presença da persuasão neste, visto que os
emissores (padres, pastores e etc.) são apenas canais de uma entidade
imaterial, cuja voz supõe poder absoluto as demais, onde existe a “ilusão da
reversibilidade”, termo criado pelo pesquisador Orlandi para designar a falta
de interação entre emissor/receptor. Dialogar-se-á com quem? Deus Fala?
O autor chama nossa
atenção para o perigo dos discursos presentes nos livros didáticos, que também
funcionam como veículos de ideologias de classes dominantes ou sofrem
interferência dos valores e idéias de quem os produzem. Citelli estuda alguns
textos e analisa estereótipos e idealizações neles contidos que servem de apoio
as séries iniciais da educação. Esses discursos formados por signos próprios do
discurso dominante, impõem aos demais os modelos daquilo que é bom e correto,
forjando uma realidade além da vivenciada pelas crianças de classes baixas.
Partindo para os textos
literários, Citelli analisa fragmentos da literatura em que as obras não
terminam incólumes as interferências de quem as narra, trazendo em seu âmago as
formações discursivas e ideológicas do narrador. Este se faz conhecer, se
expressa e apesar de não o querer, opina e persuade pela utilização de signos
específicos e articulados, que dirigem a assimilação e compreensão de quem lê.
A intenção é diminuir a ambigüidade, a polissemia, resultando numa persuasão
dirigida.
Em função das
transformações socioculturais da era contemporânea, Citelli nos argumenta que
os diversos meios de comunicação de adequaram as demandas de público, com
textos de informação para os diversos segmentos: jurídico, esportivo,
religioso, sensacionalista e etc., sem, no entanto, furtarem-se à prática
persuasiva. Os artigos podem trazer a informação imaculada, mas quando um
colunista ou redator escreve sobre o assunto, descarrega seu arsenal ideológico.
Podemos captar tal conceito ao analisar notícias, onde extraímos a informação
necessária como quando? onde? como? e assim por diante, mas ao nos determos nos
adjetivos, advérbios, tempos verbais, e etc., perceberemos nitidamente o autor
falando a partir do seu mundo pessoal.
Atenção: a resenha de Eduardo Garcia não substitui a leitura integral do texto.
O aluno deve fazer sua própria ficha de leitura.