sábado, 21 de janeiro de 2012

Resenha do livro de Adilson Cittelli: Linguagem e persuasão.

Copiada de:http://www.recantodasletras.com.br/trabalhosacademicos

1 Informação sem persuasão?

O autor Citelli, neste momento de introdução da sua obra, aos leitores esclarece que a informação não se furta das práticas persuasivas, ainda que sutilmente enraizadas nas entrelinhas da argumentação do emissor/enunciador, dirigidas a um receptor/destinatário. Para demonstrar de modo bem claro o exposto, ele compara o elemento persuasivo como a pele que envolve o corpo dos animais.
Seu objetivo é demonstrar como os discursos argumentativos das mais variadas instâncias são articulados a partir de ideologias; fornecer um rumo de pesquisa para o assunto que ora descortina, visto que muitas reflexões complementares são necessárias; e por último, espera contribuir ao leitor meios proficientes de identificar formas persuasivas, bem como refletir sobre os diversos tipos existentes de discurso.

2 A tradição retórica

O autor é ciente da importância da historicidade das relações sociais, e é por essa razão que traz um apanhado histórico do surgimento da retórica, tradição que remonta aos gregos do período antigo, por ser fundamental àquele tempo que tribunos e oradores manejassem com habilidade as estratégias argumentativas a fim de persuadir seu público, não apenas falando por falar, mas conciliar convencimento, elegância, arte e espírito. Essa harmonia era chamada de retórica.
O conceito original de retórica foi se transformando no decorrer dos séculos, inclusive com idéias pejorativas. Segundo o autor Citelli, transformou-se em sinônimo de recursos embelezadores do discurso, deixando a noção de composição harmoniosa para efeito estilístico onde priorizava-se o  uso de palavras incomuns, belas, com o único fim de enfeitar.
Citelli nos apresenta o clássico Aristóteles sob uma perspectiva desmistificada, ao dizer que ele fora o precursor a analisar as unidades compositivas voltadas a produzir persuasão, não devendo a ele o título de pai da retórica. O autor clássico diferenciava retórica de persuasão. A retórica para ele tem cunho científico, ou seja, é um conjunto de métodos de produção para se atingir um determinado fim: a persuasão.
A partir dessa explanação aristotélica, Citelli faz algumas ponderações:
            1. a retórica não é persuasão;
            2. a retórica pode revelar como se faz persuasão;
3. os discursos da medicina, da matemática, ou, da história, do judiciário, da
família, etc. são o lugar da persuasão;
            4. a retórica é analítica (descobrir o que é próprio para persuadir);
            5. a retórica é uma espécie de código dos códigos, está acima do compromisso estritamente persuasivo (ela não aplica suas regras a um gênero próprio).
Deste modo, o autor entende que a retórica não lida com o que está sendo dito, mas sim com o como o está, a partir de noções de eficácia, domínio de processo, de formas, instâncias, modos de argumentar. Ele continua na análise dos escritos aristotélicos, que traz uma estrutura para entender a arte da retórica:
1. exórdio: que funciona com a introdução para fidelizar os ouvintes;
2. narração: é o assunto, onde os fatos são desenvolvidos;
3. provas: se apresenta comprovação do que se diz para agregar credibilidade;
4. penoração: é a conclusão onde se assegura a fidelidade do receptor.
Ao se falar em persuasão, é necessária a noção do que é verdadeiro e verossimilhante. Citelli nos conceitua a persuasão como uma busca de adesão de um interlocutor ou auditório a uma tese, perspectiva, conceito, entendimento etc. sobre a validade do que se anuncia. A verdade, entendida com aquilo real e passível de comprovação, nem sempre pode ser utilizada pelo enunciador, preferindo este a verossimilhança, ou seja, aquilo que brinca de verdadeiro, se assemelha ao real e confunde-se com este.
Após tantas reflexões, Citelli nos adverte do “vazio da retórica”, isto é, a vinculação desta com a idéia de embelezamento do texto, pois até hoje persiste a noção pejorativa de retórica como recurso de embelezamento e enfeite do que se diz de coisas sem conteúdo. Em contra partida, pesquisadores de universidades na Europa tem contribuído para o resgate dos estudos retóricos sob sua perspectiva genuína, apontando novas idéias.
O autor aqui retoma alguns conceitos da retórica clássica para discorrer sobre uma série de raciocínios discursivos, que são úteis na pós-modernidade:
            1. o raciocínio apodítico: existe no discurso cuja argumentação, por ser de modo imperativa, não pode ser questionada;
            2. o raciocínio dialético: permite ao receptor formular questionamentos, no entanto ainda quer dirigir a conclusão e o entendimento do receptor;
            3. o raciocínio retórico: este tipo de discurso não deseja apenas um convencimento racional, mas também emotivo, envolvendo dados emocionais.
Ao finalizar este capítulo, Citelli nos lembra da importância das figuras de linguagem, que são usadas como recurso para prender a atenção dos receptores. São elas: a metáfora, quando substituímos um termo por outro, mas que possuem relação semelhante ou
subentendidas e a metonímia, que é a utilização de um termo em lugar de outro, desde que haja uma relação de contigüidade.

3. Signo e persuasão

            A partir da contribuição de Ferdinand de Saussure, cujos estudos versam sobre os signos lingüísticos, caracterizados pela dupla face significado e significante, respectivamente o aspecto imaterial e conceitual que nos remete a uma idéia mental, e o segundo como o aspecto concreto do signo, sua realidade material ou imagem acústica, Citelli expõe a importância desse estudo porque ele subsidiará a compreensão das teorias que outros autores trouxeram para a linguagem.
            Sintetizando Mikhail Bakhtin (1895-1975), Citelli expõe que é impossível separar os signos dos estudos das ideologias, visto existir uma íntima relação entre ambos. Para se identificar as idéias, valores, enfim: as ideologias contidas nos discursos, é necessário conhecer a natureza dos signos, das palavras.
            Utilizando exemplos práticos do dia-a-dia, como propagandas, placas e cartazes que nos cercam constantemente, Citelli faz-nos entender que a escolha das palavras dirige a compreensão, opinião e adesão do receptor para o fim que o emissor deseja. Essa palavra, no entanto, não é a mesma que se encontra em dicionários, mas sim aquela selecionada e contextualizada, que passa a expressar valores e idéias, tornando-se veículo difusor de ideologias.
            Outra reflexão importante que o autor tece diz respeito a um costume conceituado por ele como “a troca de nomes”. Retomando os conceitos do parágrafo anterior, que esclarece a importância dos signos por conterem carga semântica valiosa nos contextos utilizados, dá-se preferência a termos que minimizam, maquiam ou escondem os reais sentidos daquilo que se quer dizer. É o que fazem os empresários ao utilizarem termos como “livre-concorrência”, “livre-iniciativa” ao invés de se falar em “capitalismo”, por este conter valor semântico “negativo” no inconsciente social, por representar disputas comerciais, envolver dinheiro, etc.
            Ao dar seqüência a reflexão, Citelli ainda diz que nossos discursos podem não ser necessariamente nossos discursos. A palavra é um veículo difusor de idéias e modelador de consciência. Assim sendo, somos formados por unidades discursivas que acumulamos ao longo do processo de interação social. Portanto ao falarmos, somos falados por aquilo que somos, caracterizando nossa argumentação como discurso já proferido e internalizado, desnudando conjuntos maiores, chamados de formações discursivas.
            Segundo Citelli, o discurso persuasivo possui três facetas, que se estudadas didaticamente, auxiliarão o esclarecimento da relação íntima emissor/receptor:
                        1. formar: são os discursos cujo foco é criar comportamentos, valores e idéias em seu público;
                        2. reformar: são os discursos que se prestam a remodelar valores e idéias já existentes no meio social, reformulando pontos de vista;
                        3. conformar: este discurso não quer formar tampouco reformar algo já socialmente estabelecido, mas reiterar, incrementar, lembrar, etc.

4. Tipos de discurso

            O autor prossegue sua análise a partir das contribuições da pesquisadora Eni Orlandi, que propôs um modo de organização dos discursos para melhor compreensão:
                        1. o discurso lúdico: seria um discurso marcado por um jogo de interlocuções onde há menos verdade um, reduzindo-se o desejo de convencer;
                        2. o discurso polêmico: há o desejo do eu de dominar o referente com maior persuasão. Impondo sua voz as demais, o emissor argumenta para firmar sua posição;
                        3. o discurso autoritário: é aqui que existe a dominação pela palavra. O processo de comunicação praticamente desaparece e o discurso é exclusivista, pouco dado a mediações ou ponderações.
            Para sistematizar a análise do discurso, Citelli cita outro pesquisador, Courdesses, que propõe quatro elementos que auxiliarão nesse processo analítico do discurso autoritário:
                        1. distância: atitude do emissor, que é exclusivo, frente ao enunciado. Sua é mais forte que os próprios elementos enunciados;
                        2. modalização: o modo como o emissor constrói seu enunciado. Existe o uso do modo imperativo, do caráter parafrástico;
                        3. tensão: relação estabelecida entre emissor/receptor. Aquele se impõe à fala deste, é um eu impositivo com voz de quem comanda;
                        4. transparência: a polissemia do discurso é descartada, pois se objetiva a compreensão rápida e direta do discurso pelo receptor.

5.      Textos persuasivos

Nesta parte da obra, o autor Citelli indica alguns textos para análise do raciocínio
exposto até aqui. São textos extraídos da religião, publicidade, literatura e etc. que fundamentarão seu argumento. Ele inicia esta parte pelo discurso publicitário, que se vale das ordenações sociais, culturais, econômicas e psicológicas do receptor, aliadas ao uso de slogans, raciocínios formais e figuras de linguagem que promovem o sucesso, inclusive perpetuação de valores e difusão de estereótipos ou sua confirmação.
            No tocante ao discurso religioso, o autor analisa a forte presença da persuasão neste, visto que os emissores (padres, pastores e etc.) são apenas canais de uma entidade imaterial, cuja voz supõe poder absoluto as demais, onde existe a “ilusão da reversibilidade”, termo criado pelo pesquisador Orlandi para designar a falta de interação entre emissor/receptor. Dialogar-se-á com quem? Deus Fala?
            O autor chama nossa atenção para o perigo dos discursos presentes nos livros didáticos, que também funcionam como veículos de ideologias de classes dominantes ou sofrem interferência dos valores e idéias de quem os produzem. Citelli estuda alguns textos e analisa estereótipos e idealizações neles contidos que servem de apoio as séries iniciais da educação. Esses discursos formados por signos próprios do discurso dominante, impõem aos demais os modelos daquilo que é bom e correto, forjando uma realidade além da vivenciada pelas crianças de classes baixas.
            Partindo para os textos literários, Citelli analisa fragmentos da literatura em que as obras não terminam incólumes as interferências de quem as narra, trazendo em seu âmago as formações discursivas e ideológicas do narrador. Este se faz conhecer, se expressa e apesar de não o querer, opina e persuade pela utilização de signos específicos e articulados, que dirigem a assimilação e compreensão de quem lê. A intenção é diminuir a ambigüidade, a polissemia, resultando numa persuasão dirigida.
            Em função das transformações socioculturais da era contemporânea, Citelli nos argumenta que os diversos meios de comunicação de adequaram as demandas de público, com textos de informação para os diversos segmentos: jurídico, esportivo, religioso, sensacionalista e etc., sem, no entanto, furtarem-se à prática persuasiva. Os artigos podem trazer a informação imaculada, mas quando um colunista ou redator escreve sobre o assunto, descarrega seu arsenal ideológico. Podemos captar tal conceito ao analisar notícias, onde extraímos a informação necessária como quando? onde? como? e assim por diante, mas ao nos determos nos adjetivos, advérbios, tempos verbais, e etc., perceberemos nitidamente o autor falando a partir do seu mundo pessoal.

Atenção: a resenha de Eduardo Garcia não substitui a leitura integral do texto.
O aluno deve fazer sua própria ficha de leitura.


Algumas anotações sobre linguagem e persuasão: tipos de discurso

1. O contexto histórico

            A persuasão é o ato de influenciar uma pessoa, tendo como objetivo operar a transferência de um ponto de vista, de uma opinião, impondo-se através da razão, da imaginação ou da emoção.

            A persuasão, além de influenciar, também informa. Informa não com uma opinião neutra, mas provocando uma adesão.

            Na época clássica, da Grécia do séc. IV a.C., consideravam-se, segundo Citelli (1985:18), três tipos de raciocínios discursivos:

            a)o raciocínio apodítico: o que revela tom da verdade inquestionável. A argumentação se realiza com tal grau de fechamento que não resta ao receptor qualquer dúvida quanto à verdade do emissor.

           b)o raciocínio dialético: busca quebrar a inflexibilidade do raciocínio apodítico. Aponta-se para mais de uma conclusão possível. No entanto, o modo de formular as hipóteses acaba por indicar a conclusão mais aceitável. É um jogo de sutilezas que consiste em fazer parecer ao receptor que existe uma abertura no interior do discurso.

            c)O raciocínio retórico: é o mecanismo de condução das idéias, capaz de atuar num eficiente mecanismo de envolvimento do receptor.

            Nessa mesma época, quem ensinava a arte de persuadir eram os sofistas por meio da retórica. Eram eles os antigos educadores, que, preocupados com a linguagem, seu instrumento de trabalho, desenvolveram a arte da correção (a gramática), a arte de persuadir (a retórica), a arte de argumentar (a dialética). (BUZZI, 1994:136)

            Os sofistas serviam à classe dominante, auxiliando os cidadãos nos negócios e nas questões políticas em troca de alguma recompensa. Dessa forma, a sofística acabava se avantajando da filosofia, porque era um saber "útil", principalmente, para o poder político. Por isso, a condenação de Platão e Sócrates à arte de persuadir dos sofistas. Ela prefigurava as armadilhas do pensamento moderno e tinha como principais causadores: o discurso político, a publicidade, todas as formas de propagandas e todos os discursos provenientes de uma autoridade qualquer. (BELLENGER, 1987:17)

            Diferente dos sofistas, Aristóteles ensinava a persuadir tanto pelo sentimento como pela prova

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

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RAMOS, Graciliano. Vidas Secas..............................................................
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SOBRENOME, Nome. Título de artigo. In SOBRENOME, Nome (organizador, editor, coordenador, etc. [da coletânea]). Título da coletânea. Edição. Local (cidade): editora, data, p. [página inicial]-[página final].
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Jargão e incomunicabilidade:

A incomunicabilidade gerada pelo jargão de alguns profissionais está muito bem representada na crônica disponível em http://palavraimpropria.wordpress.com/2012/01/17/como-luiza-foi-parar-no-canada-relatos-da-vida-em-agencia/
O autor discute uma situação nonsense que foi representada por um hit da internet denominado
" menos a Luíza,que está no Canadá"
Na ânsia de enfiar uma informação que , na perspectiva do autor da frase, dá status para quem a profere, comete uma belíssima gafe comunicativa.Introduz, de lugar nenhum, uma informação que nada tem a ver com a propaganda de venda que está fazendo.Este ruído acontece muito frequentemente nos textos escritos, especialmente aqueles que querem encher linguiça.Como podemos perceber da crônica do Blogue Palavra Imprópria,ás vezes não sabemos muito bem qual a informação que queremos passar e aí, entra a informação sobre a Luiza....
Escrever para informar é uma ação que pede um pequeno conjunto de regras para que o texto referencial atinja seu objetivo de informação esclarecimento ou explanação.Nas aulas de teoria da comunicação das faculdades de jornalismo, o professor quase sempre pede que o aluno pense, ao escrever uma matéria, em responder as cinco perguntas : quem? ; o quê?, quando?, onde? .Às vezes pode ser necessária uma sexta pergunta : com que meios?.
Essa é uma regrinha do bem, quando se trta de texto informativo.Vamos reler os nossos textos informativos e verificar se eles atende ou não a esse bom conselho gramatical?

quinta-feira, 6 de março de 2008

A Terceira Margem do Rio

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Paráfrase ou plágio?

A favor da resenha e contra o plágio

A resenha revela uma leitura feita e muito bem feita pelo estudioso.Não tem nada a ver com plágio que é aquele ato bastante preguiçoso e condenável de quem copia de outro autor e não indica a fonte. A resenha, o resumo, as fichas de leitura devem cumprir um objetivo claro: comunicar a outro leitor os aspectos essenciais da obra lida ou estudada Outro objetivo dessas formas de registro é o de oferecer aos alunos uma memória cumulativa dos textos lidos.Daí a sugestão de que vocês acostumem-se logo no primeiro semestre a fazer fichas e recensões dos textos lidos em todas as disciplinas.
O leitor da resenha( quando não for apenas o professor) deve ter prazer nesta leitura e , eventualmente, ficar tentado a fazer a leitura do texto resenhado.Se você apresenta uma resenha para avaliação do professor ou orientador devem ser seguidas as orientações dadas por estes. Às vezes, os modelos formais solicitados são variados.É bom, principalmente neste caso, que o resenhista lembre-se de usar a norma padrão ou gramaticalalém de lembrar-se de que se for citar o próprio texto resenhado, isso deverá ser feito entre aspas ou em itálico. Não se esqueça nunca da indicação bibliográfica e da indicação das páginas de onde retirou suas citações.
Em alguns casos, especialmente naquele formato que chamamos de resenha crítica,pode ser feita ulma pesquisa extra texto, isto é, podemos buscar informações sobre o autor, sua época,sobre o assunto em questão e sobre a situação atual da pesquisa científica sobre o tema. Tais elementos externos à leitura podem facilitar suas observações críticas,ou simplesmente enriquecer mais ainda a sua absorção do assunto.

.Fichas de leitura
As fichas de leitura devem destacar todas aquelas passagens da obra ou fragmento que foram consideradas como centrais ou mais impotantes no texto lido. Neste caso,o receptor do texto original, o estudante ou pesquisador fez paráfrases e repetiu com suas próprias palavras o pensamento do autor. Muitas vezes -e é interessante que isso aconteça- esse estudioso reproduzirá trechos inteiros da obra original entre aspas ou em itálico.Até aqui, não houve plágio, mas haverá se for omitida a citação do autor, da obra e das páginas de onde foram retiradas...Como citar?
Vamos a um exemplo em que se observa o critério de citação, de acordo com os padrões de Normas Técnicas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas):

[I] PARÁFRASES E PLÁGIO
Ao elaborar a ficha de leitura, você resumiu vários pontos do/a autor/a que lhe interessavam: isto é, fez paráfrases e repetiu com suas próprias palavras o pensamento do autor. E também reproduziu trechos inteiros entre aspas.
Ao passar para a redação da tese, já não terá sob os olhos o texto, e provavelmente copiará longos trechos das fichas. Aqui, é preciso certificar‑se de que os trechos que copiou são realmente paráfrases e não citações sem aspas. Do contrário, terá cometido um plágio.
Essa forma de plágio é assaz comum nas teses. O estudante fica com a consciência tranqüila porque informa, antes ou depois, em nota de rodapé, que está se referindo àquele autor. Mas o leitor que, por acaso, percebe na página não uma paráfrase do texto original, mas uma verdadeira cópia sem aspas, pode tirar dai uma péssima impressão. E isto não diz respeito apenas ao orientador, mas a quem quer que posteriormente estude a sua tese, para publicá‑la ou para avaliar sua competência.

Como ter certeza de que uma paráfrase não é um plágio ? Antes de tudo, se for muito mais curta do que o original, é claro. Mas há casos em que o autor diz coisas de grande conteúdo numa frase ou período curtíssimo, de sorte que a paráfrase deve ser muito mais longa do que o trecho original. Neste caso, não se deve preocupar doentiamente em nunca colocar as mesmas palavras, pois às vezes é inevitável ou mesmo útil que certos termos permaneçam imutáveis. A prova mais cabal é dada quando conseguimos parafrasear o texto sem tê‑lo diante dos olhos, significando que não só não o copiamos como o entendemos.
SOBRENOME, Nome do autor. Título da obra. Subtítulo. Edição. Cidade (local da publicação; quando houver duas cidades, separa-se com barra: /): Editora (quando houver mais de uma editora, separa-se por barra: /), ano da publicação e páginas citadas.
Ex:
ECO, Humberto. Como se faz uma tese. 12ª ed.. SP: Perspectiva, 1995, p. 128 a 132.

Ficha de leitura

Ficha de leitura

Eliana Asche[1]

São muitos os modelos que podem ser utilizados para fazer fichamento de um texto ou de uma obra.O principal aspecto, no entanto, que o aluno de um curso de graduação deve observar, é o da utilidade que esse material pode ter para o acompanhamento de seus estudos, ao longo das diferentes séries.Quanto mais cedo ele se dedicar a uma rotina de registros de leitura, mais produtivo será o seu acompanhamento das disciplinas.Manter os registros de leitura organizados facilita a vida do estudante, na realização das avaliações periódicas, na remissão de leituras, na confecção de resenhas, artigos e na produção de seu Trabalho de Conclusão de Curso.
O fichamento pode ser entendido como uma forma auxiliar de investigação científica ou de sistematização de estudos O aluno pode registrar de modo mais formal ou operacional numa ficha (manuscrita ou digitada) todo o material necessário à compreensão de um texto ou tema. Para isso, é preciso usar modelos que contenham ao menos::

1) Indicação bibliográfica — mostrando a fonte da leitura.(obrigatório)
2) Resumo — em tópicos ou em modo discursivo.(obrigatório)
3) Citações —(opcional)
4) Comentários (opcional)—

O aluno pode registrar também, ao final da ficha, as idéias correlações que lhe ocorreram ou juízos que estabeleceu após a leitura.Esse recurso é pessoal e não deve figurar em trabalhos entregues ao professor, se isso não for solicitado..

Modelo simples de fichamento

INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

SOBRENOME, Nome do autor. Título da obra. Subtítulo. Edição. Cidade (local da publicação; quando houver duas cidades, separa-se com barra: /): Editora (quando houver mais de uma editora, separa-se por barra: /), ano da publicação e páginas citadas.
Resumo
Apresentação objetiva das idéias expressas pelo autor do texto lido em tópicos ou modo discursivo.